22 janeiro 2014




Durante o dia sorrio.
Durante o dia permito-me a alma.
E quem observasse entenderia-me leve.
Mas durante a noite são fragmentos.
E busco recolhe-los:
Ás vezes cuidadosamente,
Às vezes desejando parti-los ainda mais.
Faz-se necessário que à noite eu recolha fragmentos,
E então tentar seguir inteira.
Um dia mais sem você.

10 outubro 2013

Copacabana






Carros, pessoas: muitas pessoas - borracha e asfalto. Sapatos, roupas... “Trago seu amor em três dias”.Buzinas, pessoas, Sérgio Tatoo Prédios, lojas, outras pessoas. Esquinas. São muitas esquinas: virei aquela. 


Repentinamente uma rosa de capim: irritante necessidade de poesia.

Estendo as mãos e despejo moedas.
Ele compreende minhas necessidades. Olha fundo em meus olhos. Recebo a rosa. 
Ridícula poesia. Desabo.

Só porque bem alí entrego moedas – tão preciosas para quem não as tem nenhuma. – e então recebo um olhar – estomago vazio e se permite olhar-me -, recebo um sorriso – nem me arrisco dizer – e recebo além de tudo minha rosa de capim.
As rosas falam.
Desabo - aos pés de Santa Clara 33.

19 setembro 2013

Trocentos Tumores Insistentes


Espero uma vida pendurada no tic-tac de um relógio sem pilha e depois caminho cada passo improvável até o juízo final. Sobre minha cabeça pedras até o horizonte. Mas até plaino. Se bem que necessito asas: o papel não mais em branco - lápis em movimento

04 setembro 2013



Sua voz era rouca e seus olhos levemente puxados – contraponto de sua cor mulata. Parou meu olhar: a simplicidade dele. Mas na verdade era muito mais do que isso, ele era dessas pessoas que carregam história. História dele, história que não é dele. E carrega tanta história que nos causa nostalgia. Coisa besta essa: nostalgia de um tempo que não vivemos. De alguém que não fomos.

03 setembro 2013

Construções




 Foi aqui viu? Foi bem aqui. Mas não era assim não, ali no canto tinha um palco, um palco abandonado – desses pequenos, de cimento – cheio de folhas por cima, é que tinham umas árvores também sabe? Então as folhas caiam. O palco era pintado de branco, mas já estava descascando bastante, e tinham uns azulejos também, cá e lá para enfeitar...  umas coisas quebradas espalhadas ali... batia sol! É isso, batia muito sol. Meu colar de miçanga arrebentou e elas caíram todas no meio das folhas, e aí quando o sol batia algumas delas refletiam e a gente via uns brilhos como quando semicerra os olhos com os cílios molhados. E tinha uma estrutura de janela ali no canto também, e acho que tinham até umas flores... e um banco e um guarda-chuva e uma corda puída e... ah sim!  Tinha ele. Tinha ele também.

14 janeiro 2013

Algumas palavras - Alguns agradecimentos - Discurso de formatura




Palavras...  é preciso que eu me agarre a elas ainda que seja sempre muito difícil falar de algumas coisas, ainda que seja sempre muito difícil verbalizar a amizade, o companheirismo, o cuidado, o compromisso e as pequenas alegrias de cada dia. Preciso das palavras para tentar transparecer gratidão como um olhar ou um abraço e para contar uma história muitas vezes contada, mas que é única em seu essencial. Como Clarice Lispector:

“Assim é que essa história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evoca um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases.”

Para que comece certa essa história, que termina com um começo de muitas outras, é preciso relembrar alguns detalhes, pois os detalhes não são o corpo, o órgão ou a articulação, mas a  alma de um todo.
Detalhes como nossa inexplicável síndrome de auditório, nosso talento nato para cantar “parabéns pra você” em aulas especificas e nossas intermináveis polêmicas sobre o mais irrelevante assunto. Uma piadinha pra começar a aula (e elas não seriam tão inspiradoras, Bebeto, não fosse sua boa vontade e seu bom humor sempre presentes) rimas de contexto levemente pornográfico para decorar fórmulas (e eu não gosto de citar nomes, mas foi o Bizú) e frases de efeito (efeito retardado talvez) do tipo: “eu sabia que vocês iam falar isso”. Detalhes como lagrimas de despedida, uma canção “para amar-te” e uma música no violão que dizia assim “eu não consigo te esquecer”.  
Três anos, 600 dias, incontáveis risadas. Uma causa e um efeito. Nossa causa: obrigação e comprometimento com o futuro. O efeito: uma amizade poderosa. Preciso que entendam que quando digo poderosa não quero dizer que não foi ponteada por muitos conflitos, eis que somos seres humanos. Digo poderosa porque ela tornou a aparente problemática de nossas diferenças, e são muitas, um aprendizado e  foi capaz de se sobrepor a solidão de quem vinha de fora (ou teve que mudar de turma por motivos de força maior). Essa amizade que acabou por se tornar maior do que tudo, ainda que a duras penas, é a nossa maior conquista, e ainda que sigamos caminhos diferentes cada um de nós da insubstituível “3.0 flex” levara consigo o legado de ter descoberto dia após dia a possibilidade de união e companheirismo acima de tudo. De Carlos Drummond de Andrade:

“As coisas tangíveis
Tornam-se insensíveis
À palma da mão

As coisas findas
Muito mais que lindas
Estas ficarão.”  

E a dedicação, a paciência de cada dia que nos trouxe até aqui. É preciso que eu fale delas com aquela gratidão que se vê no olhar e se sente no abraço. É preciso que eu fale de nossos professores que nos ensinaram daquilo que não se encontra em livros.
O professor está além de qualquer adjetivo, pois resguarda o paradoxo da existência sendo o sujeito simples que oculta todo o mistério da oração subordinada de nossa vida.  Subordinada por que muitas vezes é necessário que atravessemos um rio, e ainda que não tenhamos consciência disso, há sempre um mestre, sempre um professor, que se faz canoa, bastando que nós rememos.
O professor tem nas mãos a possibilidade de formar um juiz, um engenheiro, um médico, outro professor. Um juiz que não apenas conhece a lei, mas serve à justiça, um engenheiro que não planeja prisões, mas abriga famílias, um médico que não decide sobre vidas, mas salva vidas, um professor que não apenas aprende a ensinar a matéria proposta, mas aprende a possibilidade que tem de fazer do mundo um lugar melhor, formando acima de profissionais, seres humanos.
Nilza, Regina, Ana Laura, Mariana, Ronaldo, Rômulo, Júlio, Toy, Bizú, Cyd, Diego, Tarta, Elder, Bebeto, vocês fizeram dessa possibilidade um lema, e nos permitiram conhecer da vida além de fórmulas, concordâncias e artérias, alguns detalhes essenciais. E quero dizer que:

“Que trago-te um recado
Houve gente que praticou uma boa ação
Manda dizer-te que foi porque
Teu exemplo convenceu
Houve gente que venceu na vida
Manda dizer-te que foi porque
Tuas lições permaneceram
E houve mais alguém que superou a dor
Manda dizer-te que foi a lembrança
De tua coragem que ajudou.”

Quando...  Quando você era um peixe... Não, não era isso. Quando a gente percebe que todas aquelas pessoas com quem convivemos tanto tempo e tão intensamente... Quando percebe que todos aqueles momentos, aqueles detalhes e aquelas risadas, não mais farão parte de nossa rotina, sentimos a ausência, mas é preciso que eu mais uma vez use as sábias palavras de Carlos Drummond de Andrade que diz assim:

“Por muito tempo achei que a ausência era falta,
E lastimava ignorante a falta.
Hoje não lastimo
Não há falta na ausência.”

Não há falta, é um momento que se encerra. Assim é que a vida, toda feita em ciclos, é sempre calcada por momentos que nos envolvem e são vividos com a certeza da eternidade... Depois passam, ficando sua ausência, mas não sua falta, caso contrário estaria a vida sempre faltando. E a ausência inevitável que se faz no dia a dia não se faz no coração, pois ele não se limita ao tempo, e as marcas de cada momento, de cada pessoa ficam gravadas e são eternizadas em nós, moldando a essência do que somos e do que seremos. Assim mais uma vez quero falar de gratidão, de uma gratidão exposta em um sorriso aberto, e entregar esse sorriso a todos que nos marcaram, seja com ensinamentos, com abraços, com afetos ou mesmo com a simples presença, seja com broncas, com conselhos ou mesmo com uma carranca mal humorada.... Oferecer esse sorriso à diretoria e a coordenação, sempre cuidadosas... E oferece-lo ainda mais radiante aos pais, que nos permitiram estar aqui e nos ofereceram seu amor para que existíssemos.

Resta ainda uma gratidão, esta é clara e sossegada. Absoluta. Não está no olhar, nem no abraço nem no sorriso. Esta não pode ser vista nem percebida, apenas pode ser sentida. Esta ofereço ao Pai invisível que nos ilumina e nos permite alcançar nossos sonhos, que flore e perfuma nossa existência e nos permite estar aqui hoje, nessa solenidade que é a consagração de nosso sucesso. Peço e rogo que em cada momento de nossas vidas daqui para frente possamos ser justos e amar. Amar o raio de sol que anuncia o dia, amar a terra que nos alimente e a natureza que nos permite ser. Amar a vida e todo pulsar. Amar o próximo, amar todos, amar sem excluir. Peço enfim:

“Senhor fazei-nos um instrumento de vossa paz.”   

De resto é só ter fé que no final dá tudo certo, né isso?!   

17 março 2012

Cores


Aparentemente não tinha nada de extraordinário, não parecia merecer destaque, não parecia ser diferente e nem parecia ser importante pra que alguém contasse sua história.
Era um menino normal. Gostava de catar minhocas e de soltar pipa. Não gostava de matemática, nem de jiló e nem de coisas azedas. Às vezes faltava aula e ficava jogando futebol na rua. Gostava muito de maria mole e mais ainda da Maria, meninasinha risonha, filha do padeiro.
Mas tinha uma mania engraçada, mania que era mais do que gostar e era melhor do que todas as coisas. Era melhor do que limonada, melhor do que maria mole e a Maria juntas. Era uma mania danada de observar. Observava as pessoas, as paisagens, as minhocas e o moço que passava à tardinha com aquela máquina de fazer pipoca. Mas não eram bem as pessoas, não eram bem as paisagens, não eram bem as minhocas ou as pipocas. Eram as cores. Ele observava as cores. Todas elas. E é bem aí que a gente tem vontade de contar sua história. Tem vontade de falar dele. Porque ele tinha olhinhos de pintor. Se sentia eufórico a cada tonalidade, a cada nova cor. Não observava e nem achava bonito apenas o começo ou o fim do dia quando as cores se fundem em milhares de tonalidades inebriantes. Gostava de observar o branco da pipoca sendo coberto pelo amarelo amarronzado do caldo de cana, e o branco de farinha na cara da Maria que era toda pretinha. Adorava quando a noite ia chegando e o céu ficava quase lilás com uma estrela brilhando sozinha entre as nuvens. Se deliciava quando chegava seu aniversário e a mãe preparava pra ele um bolo de fubá amarelinho coberto de coco branco e colocava bem no meio uma flor rosada do quintal. Às vezes, e torcia para que sua mãe jamais soubesse, cobria a mão de barro e prensava com força na parede branquinha do fundo de casa. E ficava observando o marrom e o branco... e o verde da grama, e o preto do gato, e o azul do céu e o cinza do muro com o violeta da flor.
Estava convencido de que existia um pintor muito caprichoso que combinava todas aquelas cores, e jamais errava nos tons, jamais misturava cores descombinantes. E punha tudo alí, só pra gente olhar e achar bonito.
Um dia o menino dos olhinhos de pintor conheceu um moço muito curioso. Era um moço que não via cores. Contou pro menino que tinha experimentado alguns jilós e coisas azedas pela vida e que agora tudo era cinzento.
O menino foi embora cabisbaixo. Esperou a noite chegar e deitou. Mas não dormiu. Ficou pensando no homem que não via cores. Decidiu que aquilo estava muito errado e resolveu mostrar ao homem algumas coisas.
Mostrou-lhe a pipoca e o melado. Mostrou-lhe o amanhecer, o anoitecer e o entardecer. Mostrou-lhe as flores e o muro e o gato e o bolo de fubá. Foi chamando a atenção do homem a cada nova tonalidade. Por último mostrou-lhe o mais bonito. A Maria. Brincava sentada no chão do lado do padeiro. Toda pretinha com a cara suja de branco, e ao lado, como que por obra do pintor misterioso, uma maçã, uma maçã bem vermelha.
O menino sentou o homem, e falou pra ele, bem baixinho, de pé de ouvido. Falou sobre o pintor. Contou que ele era muito cuidadoso e que pintava tudo aquilo pra que a gente visse, pra que a gente gostasse, pra que a gente se sentisse feliz. Falou num tom muito sério e depois saiu correndo.
O homem foi embora, pensando que aquele menino era doido, pensando em todas as asneiras que ele tinha dito e reparando como estavam amarelos os girassóis naquela primavera.

12 agosto 2011

Música



Morava numa cidade pequena, numa rua sossegada, numa casa bem grande. Mas dizer que morava soa até engraçado, dizer que morava dá ideia de lar, coisa que aquele casarão nunca fora. Era mesmo um lugar onde o menino aprendera a viver, sua mãe trabalhava ali desde que se sabia gente. E o menino ficava a seu lado, não porque quisesse, sua mãe o amava a sua maneira, calada e carrancuda, maneira de amar essa que o fizera chorar muitas vezes quando criança. Hoje porém o menino já era rapaz, praticamente homem feito e essa maneira de amar, as avessas, só trazia desprezo. Ficava alí porque precisava, porque não tinha pra onde ir, não tinha porque ir. Muitas vezes pensou em ir embora, mas faltava coragem, ou talvez faltasse vontade... a bem da verdade seu motivo era mais que uma falta, era mesmo uma presença, aquela tal música. Às vezes um piano, outras um trompete ou talvez uma flauta.Era uma música que vinha ele não sabia da onde, só sabia que às vezes, no fim da tarde enquanto cuidava do jardim ou varria alguma calçada, ela vinha descendo, lá do alto da rua e lhe chegava aos ouvidos. Aquela melodia. Trazia cheiros, imagens e o rapaz sentia saudade de um passado que não vivera.
Depois ia embora, levava com ela aquele mundo, aquela vida saudosa e sem identidade que só a música parecia conhecer. E o rapaz continuava o seu trabalho, e se trancava novamente em sua revolta, em sua raiva do destino que o fizera um empregado, praticamente mordomo, sem direito de falar ou querer, com raiva de sua mãe, que seguia submissa, e das pessoas que pareciam não notá-lo. Observava-as passarem na rua, elegantes, cheias de si, rumo aos seus casarões, sempre nariz empinado.
E havia aquele homem, sempre aquele homem, que passava de preto carregando seus papéis com ar de importância. O rapaz não sabia o que era, mas alguma coisa na insignificância com a qual aquele homem olhava para ele o incomodava em especial. As dores pesavam, as angustias e revoltas se acumulavam e ele tinha vontade de fugir, não importava pra onde, fugir dalí, daquele lugar, daquela vida, daquele destino... mas logo a tarde caia e a música chegava, serena, parecendo adivinhar suas dores. Calava sua lamurias, secava suas lagrimas, tirava-lhe o peso e ia embora. E como que com as baterias recarregadas ele continuava seguindo, apenas esperando, esperando que voltasse sua música.
Mas naquele dia ela não voltou. Naquele dia, como que por luto, o céu amanheceu cinza e as flores, pálidas. O que os olhos do rapaz viram o coração não comportou. Sua mãe, jogada no chão, olhar vazio e conformado, uma única lágrima rebelde contornando-lhe o rosto. E o patrão, apressado e desajeitado fechando as calças e arrumando os cabelos. Saiu e sequer olhou para trás.
O rapaz correu, sangue nos olhos, o facão que usava contra as ervas daninhas do jardim ainda na mão. Não foi ajudar a mãe, nem tampouco se vingar do patrão. Correu para rua, sem rumo, para longe, longe daquele lugar ao qual nunca pertenceu, onde ficou tanto tempo com medo de não pertencer a lugar nenhum, correu sem destino. Correu e trombou. Trombou com um homem. Não um homem, aquele homem, que passava de preto, sempre o mesmo olhar de insignificância, cruzando a rua como se não pertencesse ao mundo e nem se importasse com ele. O rapaz não pensou, tomado pela raiva e pela dor, apenas agiu, apertou o facão com as mão trêmulas e matou. Matou aquele homem... matou aquele olhar.... matou aquele ar de importância. E talvez o rapaz nunca soubesse que naquele momento de ódio e rancor, sem sequer suspeitar, matou seu consolo. Matou sua música.

15 maio 2011



Queria dizer por meio dessas palavras,
Talvez meio erradas ou mal empregadas,
Pedindo toda paciência e vosso perdão
Sendo eu nada mais que um tosco escrivão,
Pois talvez eu não saiba falar tão bonito,
Talvez meu sussurro saia mais como um grito
Ou quem sabe um clamor incerto e errado
Que tenta ser belo, mas sai desafinado
E dá de poeta, nem saber rimar
Se esquece das métricas, nem sabe contar
Dizer uns segredos que vi pelo mundo
Mas são proibidas palavras de um vagabundo
E mesmo assim, em poesia rimado
O grito é preso e o julgam culpado
Agora marcado perdeu-se escondido
Chorando desgraças do lamento perdido
E apenas atrás dessas marcas do tempo
Nesses olhos sem endereço e sem documento,
É que podem encontrá-lo apertado e aflito,
O sussurro, o clamor, o segredo, meu grito.


"Há o direito ao grito. Então eu grito" Clarice Lispector