23 janeiro 2014

Intervenção



Não importa o que mais tinha.
Abstenho-me de versos românticos enjoativos.
Apenas uma intervenção: sua boca.
Porque tinha gosto de palheiro e cerveja amornada,
Então eu tinha de sua boca tudo o que é bom - tudo o que é fim de tarde.
Espetacular seria, talvez, chantilly,
Fizeram-nos crer assim.
Mas o doce só se faria necessário sobre o amargo
E para aqueles meus dias ensolarados,
apenas o que eu poderia esperar
Era sua boca
de fim de tarde.

22 janeiro 2014




- Venha - Sua voz ecoou quebrando o silêncio oco do espaço vazio.
Não me mexi, não levantei a cabeça, não olhei para ela. Os cacos de vidro espalhados machucavam minhas pernas.
- Levanta – Ignorei. Ao longe luzes vermelhas piscavam. Chovia, mas essa imagem não se formava lógica em minha mente. Eu estava abismo e minhas ideias apenas pulavam, suicidando-se antes que fosse possível absorver algo além de seus contornos. Estava escuro.
- Gosto do vento – lá fora uma pomba pousara sobre o teto de alguma construção vizinha – E de pombas também...
- Não me interessa – interrompi. Incomodava. Não olhei para cima. A pomba permaneceu imóvel.
- São minhocas, Mariana – sua voz parecia mais amável – minhocas que você cria. Medos e nada mais. – Ela se aproximou. Algumas mariposas voavam.
Eu talvez vomitasse.
Está doendo? – Perguntou. Não olhei para ela, e não olharia. Aproximou-se um pouco mais – Não se cobre saber nadar, se atira e vai... são apenas minhocas. - Incômodo. E agora arranhava: era medo mesmo. Crescente, pulsante. Talvez sufocasse.
- Que horas são? – Eu quis saber. Ela tentou se aproximar, mas me afastei, talvez tenha cortado um pouco a perna nos cacos de vidro.
- O tempo é mesmo uma fuga recorrente. De todos, sabe? Não se preocupe
com ele.
- Que horas? – Insisti. Ela apenas me observou imóvel. O medo crescia. Eu talvez pudesse dominá-lo, mas eu não sabia o seu porque. Eu não sabia nada. Minhas ideias permaneciam suicidando-se.
Agora um zumbido amargo de qualquer coisa que se quebra repetitivamente crescia em meu ouvido.
Meus pulmões enchiam-se de água: água inexistente e nem por isso menos sufocante.
- Eu queria saber as horas – gritei. Tentei abafar o zumbido. Quase esperei que a água inexistente em meu pulmão saísse por minha boca, por meu nariz e ouvidos, turva e quente. Consegui um apelo, retorcido e esgarçado.
Ela me olhou, dessa vez preocupada.
- Mariana – disse meu nome com a voz retraída, como se temesse quebra-lo.
– Mariana – ela disse outra vez.
Não olhei para cima. Eu não olharia. Eu não teria uma conversa amigável com ela. Eu não me levantaria.
Os cacos de vidro apenas ficaram alí: ferindo. O som continuaria pulsando em meus ouvidos a água inundaria apagando cada marca minha em mim. Meus olhos fitariam o chão.
- Mariana- Eu ouvi sua voz, tão longe, talvez ela se afastasse enfim. Escurecia.
Meus olhos fitariam o chão. Eu não sei e jamais seria possível saber se ainda chovia lá fora.
- Mariana – Ela se aproximou. Suas mãos levantaram minha cabeça. Fitei seus olhos azuis.
E então contraponto: Ela havia conhecido gente, todo tipo de gente, as mais estranhas. Ela havia andado descalça, havia tomado chuva, havia fumado cigarro. Ela gostava de primavera, havia vivido dias quentes. Interrompera o rumo de formigas e escrevera poesia. Ela fez luz de retinas. Ela amou.
Em meus ouvidos coisas mil pararam de quebrar repetitivamente.

A mariposa pousou nas mãos agora completamente frias.
Lá fora a pomba voou, afastando-se do aposento.
Para longe do corpo inerte.

Construções



Estava encolhido, sem nome como sempre, ainda mais sem nome porque agora chovia.
Acocorava-se amarelado sobre uma caixa d’água velha e sob uma árvore inapropriadamente florida.
Fitava a chuva. 
Mais precisamente fitava as gotas maiores que escorriam das folhas e se distinguiam da aguaceira.
Fitava com olhos absolutamente imóveis – acocorado e sem nome – as grandes gotas.
Fumava – achava que fumava – um cigarro molhado. 
Só isso, só isso mesmo.

Mas explico: Era Maio, por isso apenas fumava, ou apenas fitava. Não sorria ainda.


"Entre a chuva e a árvore sem tocar o chão, sem ver consrução nenhuma feita por mãos."




Durante o dia sorrio.
Durante o dia permito-me a alma.
E quem observasse entenderia-me leve.
Mas durante a noite são fragmentos.
E busco recolhe-los:
Ás vezes cuidadosamente,
Às vezes desejando parti-los ainda mais.
Faz-se necessário que à noite eu recolha fragmentos,
E então tentar seguir inteira.
Um dia mais sem você.

10 outubro 2013

Copacabana






Carros, pessoas: muitas pessoas - borracha e asfalto. Sapatos, roupas... “Trago seu amor em três dias”.Buzinas, pessoas, Sérgio Tatoo Prédios, lojas, outras pessoas. Esquinas. São muitas esquinas: virei aquela. 


Repentinamente uma rosa de capim: irritante necessidade de poesia.

Estendo as mãos e despejo moedas.
Ele compreende minhas necessidades. Olha fundo em meus olhos. Recebo a rosa. 
Ridícula poesia. Desabo.

Só porque bem alí entrego moedas – tão preciosas para quem não as tem nenhuma. – e então recebo um olhar – estomago vazio e se permite olhar-me -, recebo um sorriso – nem me arrisco dizer – e recebo além de tudo minha rosa de capim.
As rosas falam.
Desabo - aos pés de Santa Clara 33.

19 setembro 2013

Trocentos Tumores Insistentes


Espero uma vida pendurada no tic-tac de um relógio sem pilha e depois caminho cada passo improvável até o juízo final. Sobre minha cabeça pedras até o horizonte. Mas até plaino. Se bem que necessito asas: o papel não mais em branco - lápis em movimento

04 setembro 2013



Sua voz era rouca e seus olhos levemente puxados – contraponto de sua cor mulata. Parou meu olhar: a simplicidade dele. Mas na verdade era muito mais do que isso, ele era dessas pessoas que carregam história. História dele, história que não é dele. E carrega tanta história que nos causa nostalgia. Coisa besta essa: nostalgia de um tempo que não vivemos. De alguém que não fomos.

03 setembro 2013

Construções




 Foi aqui viu? Foi bem aqui. Mas não era assim não, ali no canto tinha um palco, um palco abandonado – desses pequenos, de cimento – cheio de folhas por cima, é que tinham umas árvores também sabe? Então as folhas caiam. O palco era pintado de branco, mas já estava descascando bastante, e tinham uns azulejos também, cá e lá para enfeitar...  umas coisas quebradas espalhadas ali... batia sol! É isso, batia muito sol. Meu colar de miçanga arrebentou e elas caíram todas no meio das folhas, e aí quando o sol batia algumas delas refletiam e a gente via uns brilhos como quando semicerra os olhos com os cílios molhados. E tinha uma estrutura de janela ali no canto também, e acho que tinham até umas flores... e um banco e um guarda-chuva e uma corda puída e... ah sim!  Tinha ele. Tinha ele também.

14 janeiro 2013

Algumas palavras - Alguns agradecimentos - Discurso de formatura




Palavras...  é preciso que eu me agarre a elas ainda que seja sempre muito difícil falar de algumas coisas, ainda que seja sempre muito difícil verbalizar a amizade, o companheirismo, o cuidado, o compromisso e as pequenas alegrias de cada dia. Preciso das palavras para tentar transparecer gratidão como um olhar ou um abraço e para contar uma história muitas vezes contada, mas que é única em seu essencial. Como Clarice Lispector:

“Assim é que essa história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evoca um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases.”

Para que comece certa essa história, que termina com um começo de muitas outras, é preciso relembrar alguns detalhes, pois os detalhes não são o corpo, o órgão ou a articulação, mas a  alma de um todo.
Detalhes como nossa inexplicável síndrome de auditório, nosso talento nato para cantar “parabéns pra você” em aulas especificas e nossas intermináveis polêmicas sobre o mais irrelevante assunto. Uma piadinha pra começar a aula (e elas não seriam tão inspiradoras, Bebeto, não fosse sua boa vontade e seu bom humor sempre presentes) rimas de contexto levemente pornográfico para decorar fórmulas (e eu não gosto de citar nomes, mas foi o Bizú) e frases de efeito (efeito retardado talvez) do tipo: “eu sabia que vocês iam falar isso”. Detalhes como lagrimas de despedida, uma canção “para amar-te” e uma música no violão que dizia assim “eu não consigo te esquecer”.  
Três anos, 600 dias, incontáveis risadas. Uma causa e um efeito. Nossa causa: obrigação e comprometimento com o futuro. O efeito: uma amizade poderosa. Preciso que entendam que quando digo poderosa não quero dizer que não foi ponteada por muitos conflitos, eis que somos seres humanos. Digo poderosa porque ela tornou a aparente problemática de nossas diferenças, e são muitas, um aprendizado e  foi capaz de se sobrepor a solidão de quem vinha de fora (ou teve que mudar de turma por motivos de força maior). Essa amizade que acabou por se tornar maior do que tudo, ainda que a duras penas, é a nossa maior conquista, e ainda que sigamos caminhos diferentes cada um de nós da insubstituível “3.0 flex” levara consigo o legado de ter descoberto dia após dia a possibilidade de união e companheirismo acima de tudo. De Carlos Drummond de Andrade:

“As coisas tangíveis
Tornam-se insensíveis
À palma da mão

As coisas findas
Muito mais que lindas
Estas ficarão.”  

E a dedicação, a paciência de cada dia que nos trouxe até aqui. É preciso que eu fale delas com aquela gratidão que se vê no olhar e se sente no abraço. É preciso que eu fale de nossos professores que nos ensinaram daquilo que não se encontra em livros.
O professor está além de qualquer adjetivo, pois resguarda o paradoxo da existência sendo o sujeito simples que oculta todo o mistério da oração subordinada de nossa vida.  Subordinada por que muitas vezes é necessário que atravessemos um rio, e ainda que não tenhamos consciência disso, há sempre um mestre, sempre um professor, que se faz canoa, bastando que nós rememos.
O professor tem nas mãos a possibilidade de formar um juiz, um engenheiro, um médico, outro professor. Um juiz que não apenas conhece a lei, mas serve à justiça, um engenheiro que não planeja prisões, mas abriga famílias, um médico que não decide sobre vidas, mas salva vidas, um professor que não apenas aprende a ensinar a matéria proposta, mas aprende a possibilidade que tem de fazer do mundo um lugar melhor, formando acima de profissionais, seres humanos.
Nilza, Regina, Ana Laura, Mariana, Ronaldo, Rômulo, Júlio, Toy, Bizú, Cyd, Diego, Tarta, Elder, Bebeto, vocês fizeram dessa possibilidade um lema, e nos permitiram conhecer da vida além de fórmulas, concordâncias e artérias, alguns detalhes essenciais. E quero dizer que:

“Que trago-te um recado
Houve gente que praticou uma boa ação
Manda dizer-te que foi porque
Teu exemplo convenceu
Houve gente que venceu na vida
Manda dizer-te que foi porque
Tuas lições permaneceram
E houve mais alguém que superou a dor
Manda dizer-te que foi a lembrança
De tua coragem que ajudou.”

Quando...  Quando você era um peixe... Não, não era isso. Quando a gente percebe que todas aquelas pessoas com quem convivemos tanto tempo e tão intensamente... Quando percebe que todos aqueles momentos, aqueles detalhes e aquelas risadas, não mais farão parte de nossa rotina, sentimos a ausência, mas é preciso que eu mais uma vez use as sábias palavras de Carlos Drummond de Andrade que diz assim:

“Por muito tempo achei que a ausência era falta,
E lastimava ignorante a falta.
Hoje não lastimo
Não há falta na ausência.”

Não há falta, é um momento que se encerra. Assim é que a vida, toda feita em ciclos, é sempre calcada por momentos que nos envolvem e são vividos com a certeza da eternidade... Depois passam, ficando sua ausência, mas não sua falta, caso contrário estaria a vida sempre faltando. E a ausência inevitável que se faz no dia a dia não se faz no coração, pois ele não se limita ao tempo, e as marcas de cada momento, de cada pessoa ficam gravadas e são eternizadas em nós, moldando a essência do que somos e do que seremos. Assim mais uma vez quero falar de gratidão, de uma gratidão exposta em um sorriso aberto, e entregar esse sorriso a todos que nos marcaram, seja com ensinamentos, com abraços, com afetos ou mesmo com a simples presença, seja com broncas, com conselhos ou mesmo com uma carranca mal humorada.... Oferecer esse sorriso à diretoria e a coordenação, sempre cuidadosas... E oferece-lo ainda mais radiante aos pais, que nos permitiram estar aqui e nos ofereceram seu amor para que existíssemos.

Resta ainda uma gratidão, esta é clara e sossegada. Absoluta. Não está no olhar, nem no abraço nem no sorriso. Esta não pode ser vista nem percebida, apenas pode ser sentida. Esta ofereço ao Pai invisível que nos ilumina e nos permite alcançar nossos sonhos, que flore e perfuma nossa existência e nos permite estar aqui hoje, nessa solenidade que é a consagração de nosso sucesso. Peço e rogo que em cada momento de nossas vidas daqui para frente possamos ser justos e amar. Amar o raio de sol que anuncia o dia, amar a terra que nos alimente e a natureza que nos permite ser. Amar a vida e todo pulsar. Amar o próximo, amar todos, amar sem excluir. Peço enfim:

“Senhor fazei-nos um instrumento de vossa paz.”   

De resto é só ter fé que no final dá tudo certo, né isso?!