14 janeiro 2013

Algumas palavras - Alguns agradecimentos - Discurso de formatura




Palavras...  é preciso que eu me agarre a elas ainda que seja sempre muito difícil falar de algumas coisas, ainda que seja sempre muito difícil verbalizar a amizade, o companheirismo, o cuidado, o compromisso e as pequenas alegrias de cada dia. Preciso das palavras para tentar transparecer gratidão como um olhar ou um abraço e para contar uma história muitas vezes contada, mas que é única em seu essencial. Como Clarice Lispector:

“Assim é que essa história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evoca um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases.”

Para que comece certa essa história, que termina com um começo de muitas outras, é preciso relembrar alguns detalhes, pois os detalhes não são o corpo, o órgão ou a articulação, mas a  alma de um todo.
Detalhes como nossa inexplicável síndrome de auditório, nosso talento nato para cantar “parabéns pra você” em aulas especificas e nossas intermináveis polêmicas sobre o mais irrelevante assunto. Uma piadinha pra começar a aula (e elas não seriam tão inspiradoras, Bebeto, não fosse sua boa vontade e seu bom humor sempre presentes) rimas de contexto levemente pornográfico para decorar fórmulas (e eu não gosto de citar nomes, mas foi o Bizú) e frases de efeito (efeito retardado talvez) do tipo: “eu sabia que vocês iam falar isso”. Detalhes como lagrimas de despedida, uma canção “para amar-te” e uma música no violão que dizia assim “eu não consigo te esquecer”.  
Três anos, 600 dias, incontáveis risadas. Uma causa e um efeito. Nossa causa: obrigação e comprometimento com o futuro. O efeito: uma amizade poderosa. Preciso que entendam que quando digo poderosa não quero dizer que não foi ponteada por muitos conflitos, eis que somos seres humanos. Digo poderosa porque ela tornou a aparente problemática de nossas diferenças, e são muitas, um aprendizado e  foi capaz de se sobrepor a solidão de quem vinha de fora (ou teve que mudar de turma por motivos de força maior). Essa amizade que acabou por se tornar maior do que tudo, ainda que a duras penas, é a nossa maior conquista, e ainda que sigamos caminhos diferentes cada um de nós da insubstituível “3.0 flex” levara consigo o legado de ter descoberto dia após dia a possibilidade de união e companheirismo acima de tudo. De Carlos Drummond de Andrade:

“As coisas tangíveis
Tornam-se insensíveis
À palma da mão

As coisas findas
Muito mais que lindas
Estas ficarão.”  

E a dedicação, a paciência de cada dia que nos trouxe até aqui. É preciso que eu fale delas com aquela gratidão que se vê no olhar e se sente no abraço. É preciso que eu fale de nossos professores que nos ensinaram daquilo que não se encontra em livros.
O professor está além de qualquer adjetivo, pois resguarda o paradoxo da existência sendo o sujeito simples que oculta todo o mistério da oração subordinada de nossa vida.  Subordinada por que muitas vezes é necessário que atravessemos um rio, e ainda que não tenhamos consciência disso, há sempre um mestre, sempre um professor, que se faz canoa, bastando que nós rememos.
O professor tem nas mãos a possibilidade de formar um juiz, um engenheiro, um médico, outro professor. Um juiz que não apenas conhece a lei, mas serve à justiça, um engenheiro que não planeja prisões, mas abriga famílias, um médico que não decide sobre vidas, mas salva vidas, um professor que não apenas aprende a ensinar a matéria proposta, mas aprende a possibilidade que tem de fazer do mundo um lugar melhor, formando acima de profissionais, seres humanos.
Nilza, Regina, Ana Laura, Mariana, Ronaldo, Rômulo, Júlio, Toy, Bizú, Cyd, Diego, Tarta, Elder, Bebeto, vocês fizeram dessa possibilidade um lema, e nos permitiram conhecer da vida além de fórmulas, concordâncias e artérias, alguns detalhes essenciais. E quero dizer que:

“Que trago-te um recado
Houve gente que praticou uma boa ação
Manda dizer-te que foi porque
Teu exemplo convenceu
Houve gente que venceu na vida
Manda dizer-te que foi porque
Tuas lições permaneceram
E houve mais alguém que superou a dor
Manda dizer-te que foi a lembrança
De tua coragem que ajudou.”

Quando...  Quando você era um peixe... Não, não era isso. Quando a gente percebe que todas aquelas pessoas com quem convivemos tanto tempo e tão intensamente... Quando percebe que todos aqueles momentos, aqueles detalhes e aquelas risadas, não mais farão parte de nossa rotina, sentimos a ausência, mas é preciso que eu mais uma vez use as sábias palavras de Carlos Drummond de Andrade que diz assim:

“Por muito tempo achei que a ausência era falta,
E lastimava ignorante a falta.
Hoje não lastimo
Não há falta na ausência.”

Não há falta, é um momento que se encerra. Assim é que a vida, toda feita em ciclos, é sempre calcada por momentos que nos envolvem e são vividos com a certeza da eternidade... Depois passam, ficando sua ausência, mas não sua falta, caso contrário estaria a vida sempre faltando. E a ausência inevitável que se faz no dia a dia não se faz no coração, pois ele não se limita ao tempo, e as marcas de cada momento, de cada pessoa ficam gravadas e são eternizadas em nós, moldando a essência do que somos e do que seremos. Assim mais uma vez quero falar de gratidão, de uma gratidão exposta em um sorriso aberto, e entregar esse sorriso a todos que nos marcaram, seja com ensinamentos, com abraços, com afetos ou mesmo com a simples presença, seja com broncas, com conselhos ou mesmo com uma carranca mal humorada.... Oferecer esse sorriso à diretoria e a coordenação, sempre cuidadosas... E oferece-lo ainda mais radiante aos pais, que nos permitiram estar aqui e nos ofereceram seu amor para que existíssemos.

Resta ainda uma gratidão, esta é clara e sossegada. Absoluta. Não está no olhar, nem no abraço nem no sorriso. Esta não pode ser vista nem percebida, apenas pode ser sentida. Esta ofereço ao Pai invisível que nos ilumina e nos permite alcançar nossos sonhos, que flore e perfuma nossa existência e nos permite estar aqui hoje, nessa solenidade que é a consagração de nosso sucesso. Peço e rogo que em cada momento de nossas vidas daqui para frente possamos ser justos e amar. Amar o raio de sol que anuncia o dia, amar a terra que nos alimente e a natureza que nos permite ser. Amar a vida e todo pulsar. Amar o próximo, amar todos, amar sem excluir. Peço enfim:

“Senhor fazei-nos um instrumento de vossa paz.”   

De resto é só ter fé que no final dá tudo certo, né isso?!   

17 março 2012

Cores


Aparentemente não tinha nada de extraordinário, não parecia merecer destaque, não parecia ser diferente e nem parecia ser importante pra que alguém contasse sua história.
Era um menino normal. Gostava de catar minhocas e de soltar pipa. Não gostava de matemática, nem de jiló e nem de coisas azedas. Às vezes faltava aula e ficava jogando futebol na rua. Gostava muito de maria mole e mais ainda da Maria, meninasinha risonha, filha do padeiro.
Mas tinha uma mania engraçada, mania que era mais do que gostar e era melhor do que todas as coisas. Era melhor do que limonada, melhor do que maria mole e a Maria juntas. Era uma mania danada de observar. Observava as pessoas, as paisagens, as minhocas e o moço que passava à tardinha com aquela máquina de fazer pipoca. Mas não eram bem as pessoas, não eram bem as paisagens, não eram bem as minhocas ou as pipocas. Eram as cores. Ele observava as cores. Todas elas. E é bem aí que a gente tem vontade de contar sua história. Tem vontade de falar dele. Porque ele tinha olhinhos de pintor. Se sentia eufórico a cada tonalidade, a cada nova cor. Não observava e nem achava bonito apenas o começo ou o fim do dia quando as cores se fundem em milhares de tonalidades inebriantes. Gostava de observar o branco da pipoca sendo coberto pelo amarelo amarronzado do caldo de cana, e o branco de farinha na cara da Maria que era toda pretinha. Adorava quando a noite ia chegando e o céu ficava quase lilás com uma estrela brilhando sozinha entre as nuvens. Se deliciava quando chegava seu aniversário e a mãe preparava pra ele um bolo de fubá amarelinho coberto de coco branco e colocava bem no meio uma flor rosada do quintal. Às vezes, e torcia para que sua mãe jamais soubesse, cobria a mão de barro e prensava com força na parede branquinha do fundo de casa. E ficava observando o marrom e o branco... e o verde da grama, e o preto do gato, e o azul do céu e o cinza do muro com o violeta da flor.
Estava convencido de que existia um pintor muito caprichoso que combinava todas aquelas cores, e jamais errava nos tons, jamais misturava cores descombinantes. E punha tudo alí, só pra gente olhar e achar bonito.
Um dia o menino dos olhinhos de pintor conheceu um moço muito curioso. Era um moço que não via cores. Contou pro menino que tinha experimentado alguns jilós e coisas azedas pela vida e que agora tudo era cinzento.
O menino foi embora cabisbaixo. Esperou a noite chegar e deitou. Mas não dormiu. Ficou pensando no homem que não via cores. Decidiu que aquilo estava muito errado e resolveu mostrar ao homem algumas coisas.
Mostrou-lhe a pipoca e o melado. Mostrou-lhe o amanhecer, o anoitecer e o entardecer. Mostrou-lhe as flores e o muro e o gato e o bolo de fubá. Foi chamando a atenção do homem a cada nova tonalidade. Por último mostrou-lhe o mais bonito. A Maria. Brincava sentada no chão do lado do padeiro. Toda pretinha com a cara suja de branco, e ao lado, como que por obra do pintor misterioso, uma maçã, uma maçã bem vermelha.
O menino sentou o homem, e falou pra ele, bem baixinho, de pé de ouvido. Falou sobre o pintor. Contou que ele era muito cuidadoso e que pintava tudo aquilo pra que a gente visse, pra que a gente gostasse, pra que a gente se sentisse feliz. Falou num tom muito sério e depois saiu correndo.
O homem foi embora, pensando que aquele menino era doido, pensando em todas as asneiras que ele tinha dito e reparando como estavam amarelos os girassóis naquela primavera.

12 agosto 2011

Música



Morava numa cidade pequena, numa rua sossegada, numa casa bem grande. Mas dizer que morava soa até engraçado, dizer que morava dá ideia de lar, coisa que aquele casarão nunca fora. Era mesmo um lugar onde o menino aprendera a viver, sua mãe trabalhava ali desde que se sabia gente. E o menino ficava a seu lado, não porque quisesse, sua mãe o amava a sua maneira, calada e carrancuda, maneira de amar essa que o fizera chorar muitas vezes quando criança. Hoje porém o menino já era rapaz, praticamente homem feito e essa maneira de amar, as avessas, só trazia desprezo. Ficava alí porque precisava, porque não tinha pra onde ir, não tinha porque ir. Muitas vezes pensou em ir embora, mas faltava coragem, ou talvez faltasse vontade... a bem da verdade seu motivo era mais que uma falta, era mesmo uma presença, aquela tal música. Às vezes um piano, outras um trompete ou talvez uma flauta.Era uma música que vinha ele não sabia da onde, só sabia que às vezes, no fim da tarde enquanto cuidava do jardim ou varria alguma calçada, ela vinha descendo, lá do alto da rua e lhe chegava aos ouvidos. Aquela melodia. Trazia cheiros, imagens e o rapaz sentia saudade de um passado que não vivera.
Depois ia embora, levava com ela aquele mundo, aquela vida saudosa e sem identidade que só a música parecia conhecer. E o rapaz continuava o seu trabalho, e se trancava novamente em sua revolta, em sua raiva do destino que o fizera um empregado, praticamente mordomo, sem direito de falar ou querer, com raiva de sua mãe, que seguia submissa, e das pessoas que pareciam não notá-lo. Observava-as passarem na rua, elegantes, cheias de si, rumo aos seus casarões, sempre nariz empinado.
E havia aquele homem, sempre aquele homem, que passava de preto carregando seus papéis com ar de importância. O rapaz não sabia o que era, mas alguma coisa na insignificância com a qual aquele homem olhava para ele o incomodava em especial. As dores pesavam, as angustias e revoltas se acumulavam e ele tinha vontade de fugir, não importava pra onde, fugir dalí, daquele lugar, daquela vida, daquele destino... mas logo a tarde caia e a música chegava, serena, parecendo adivinhar suas dores. Calava sua lamurias, secava suas lagrimas, tirava-lhe o peso e ia embora. E como que com as baterias recarregadas ele continuava seguindo, apenas esperando, esperando que voltasse sua música.
Mas naquele dia ela não voltou. Naquele dia, como que por luto, o céu amanheceu cinza e as flores, pálidas. O que os olhos do rapaz viram o coração não comportou. Sua mãe, jogada no chão, olhar vazio e conformado, uma única lágrima rebelde contornando-lhe o rosto. E o patrão, apressado e desajeitado fechando as calças e arrumando os cabelos. Saiu e sequer olhou para trás.
O rapaz correu, sangue nos olhos, o facão que usava contra as ervas daninhas do jardim ainda na mão. Não foi ajudar a mãe, nem tampouco se vingar do patrão. Correu para rua, sem rumo, para longe, longe daquele lugar ao qual nunca pertenceu, onde ficou tanto tempo com medo de não pertencer a lugar nenhum, correu sem destino. Correu e trombou. Trombou com um homem. Não um homem, aquele homem, que passava de preto, sempre o mesmo olhar de insignificância, cruzando a rua como se não pertencesse ao mundo e nem se importasse com ele. O rapaz não pensou, tomado pela raiva e pela dor, apenas agiu, apertou o facão com as mão trêmulas e matou. Matou aquele homem... matou aquele olhar.... matou aquele ar de importância. E talvez o rapaz nunca soubesse que naquele momento de ódio e rancor, sem sequer suspeitar, matou seu consolo. Matou sua música.

15 maio 2011



Queria dizer por meio dessas palavras,
Talvez meio erradas ou mal empregadas,
Pedindo toda paciência e vosso perdão
Sendo eu nada mais que um tosco escrivão,
Pois talvez eu não saiba falar tão bonito,
Talvez meu sussurro saia mais como um grito
Ou quem sabe um clamor incerto e errado
Que tenta ser belo, mas sai desafinado
E dá de poeta, nem saber rimar
Se esquece das métricas, nem sabe contar
Dizer uns segredos que vi pelo mundo
Mas são proibidas palavras de um vagabundo
E mesmo assim, em poesia rimado
O grito é preso e o julgam culpado
Agora marcado perdeu-se escondido
Chorando desgraças do lamento perdido
E apenas atrás dessas marcas do tempo
Nesses olhos sem endereço e sem documento,
É que podem encontrá-lo apertado e aflito,
O sussurro, o clamor, o segredo, meu grito.


"Há o direito ao grito. Então eu grito" Clarice Lispector

16 abril 2011

Janela


Eu era um homem sério pois havia de ser dessa maneira. Andava sempre mascarado , escondendo atrás de uma rotina friamente calculada a desordem que havia dentro em mim. Um mascarado que não se traduzia heroi, nem tampouco bandido ou artista, provavelmente um fugitivo, que não permitia ser olhado nos olhos com medo de serem flagrados nestes a tristeza e o fracasso. Dessa maneira nunca havia sido descoberto, pensava serem os meus escudos invencíveis... até que ela chegou.
Tentei me defender de todas as maneiras, me armei com todas as armas e reforcei meus escudos, mas ela não lutou. Desviou-se de cada arma, achou passagem em cada escudo, arrancou-me a mascara, olhou nos meus olhos e foi entrando nas pontas dos pés.
Tratou de dar jeito na desordem, colocou tudo em seu devido lugar, o que já não servia jogou fora, o que estava quebrado consertou e depois de todas as feridas curadas abriu a janela deixando o sol entrar.
Não sei dizer quanto tempo ela ficou. É que deixei de me importar com os números, deixei de me importar com o tempo... só sei que um dia a vi definhar a cair fraca no chão. Desesperado quis pegar nas armas, quaisquer que fossem, e lutar. Mas ela me disse num tom sério que já era hora, que agora seria espuma do mar. Virou-se para o lado, como quem sugere um cochilo e fechou lentamente seus doces olhos.
Novamente abriram-se as feridas, o fracasso voltou com suas malas carregadas com as tristezas, com as angústias. Reviveu a desordem e fechou minha janela.
Por muito tempo voltei a ser aquele fugitivo mascarado, voltei a minha rotina calculista e pensei que jamais veria o sol novamente.
Porém existia um cantinho que havia ficado marcado pela passagem dela e um dia, depois de muito relutar, fechei meus olhos e fui para lá. Afastei a tristeza, afastei a angústia e cheguei aonde algumas flores tímidas cresciam... me flagrei lembrando daqueles tempos felizes e percebi que lá fora um vento carregado de maresia forçava a janela.
Pensei que talvez devesse abri-la.


"Quando o sol bater na janela do teu quarto olha e vê que o caminho é um só" Renato Russo






Não me junte a você
Apenas para dizer

'A gente não pode mais"
Não beije minha boca
Como quem beija uma louca
De olhar triste e incapaz
Não diga que foi melhor
Que sem ti me livrei do pior
Se ainda assim te amo demais
E por favor não se vá
Como quem quer voltar
pesaroso olhando para trás



Flores não pagam contas


Quando criança, desejava cultivar flores, mas crescera aprendendo que essa não era uma idéia prática. Na escola vira muitos números, aprendera a resolver as mais diversas equações, mas nunca nada sobre o cultivo das flores. Com todos os seus números se formou, e começou a trabalhar no que não gostava para ganhar dinheiro e gastar no que não precisava.
Mantinha-se bem informado e assistia todos os dias ao noticiário, ouvia as notícias sobre a falta de água, sobre as pessoas que matavam por não saber o que fazer, as que roubavam por não ter o que comer e as que morriam por não ter onde viver. Paciente armazenava todas essas tristes realidades em alguma gaveta do seu cérebro e esperava, com um pontinho de esperança, alguma notícia sobre as flores.
No escritório concentrava-se em seus números, com a cortina sempre fechada (pois o sol atualmente era um inimigo em potencial com todos os seus raios UVB e UVA) e o ventilador ligado (o único vento no rosto que podia ter). Seguia com sua rotina estável e sua vida “confortável”. Comemorava sorrindo com falsa alegria todas as vezes que trinta e um de dezembro virava primeiro de janeiro sabendo em seu íntimo que novo naquele ano seria só o nome e alguns números. E de fato tudo permanecia igual. As vezes se desesperava e chorava pensando que já era hora de mudar tudo aquilo, mas logo as contas chegavam... as flores não pagam contas, era preciso preocupar-se com futuro.
De preocupar-se com o futuro logo o viu chegar, e já aposentado pensou com saudade em suas flores, mas velho como estava? Era melhor deixar as flores e as idéias sonhadoras para os jovens, para ele restavam os “confortos” da vida que cultivou e o noticiário, que havia se tornado seu companheiro fiel e agora só falava na tal da sustentabilidade, tão longe haviam chegado os homens com seus números.

"Somos feitos de carne mas temos que viver como se fôssemos de ferro" Freud




Canta tranquila seu brando canto... e seu canto canta e cala todo pranto

15 abril 2011

















Vendo por esse lado, é sempre importante um nome. Ela não tinha nome.
As coisas recebem nomes e logo se tornam algo.
As pessoas recebem nome e logo se tornam alguém.
E muitos achavam que ela era ninguém.
Sempre fora ‘aquela meninazinha’ que vivia ali ‘naquele lugar’. Qual lugar? Era mesmo qualquer lugar, em cima da terra em baixo do céu. Ela era ninguém e morava em lugar nenhum.
Como vivia?... Do que se alimentava?
Vivia assim. Se alimentava dos seus sonhos, apenas. Enquanto o mundo à sua volta seguia frenético seu fluxo, enquanto as pessoas precisavam de cada vez mais, ela apenas precisava de seus sonhos.
Ia vagando e sonhando, vestida com seu desejo, movida por sua esperança, passava despercebida sem se importar... não há problema... nada era problema enquanto ela podia sonhar.
Mas um dia ela foi percebida, percebida por um homem que era ninguém muito mais do que ela, que pensava que tinha algo melhor do que muitos e que queria ser alguém ainda maior do que todos. Ele a barrou. Ela pediu a ele que a deixasse seguir seu caminho.
Ele riu.
Falou que ela precisava convencê-lo. Então ela lhe contou dos sonhos, lhe entregou nas mãos tudo o que tinha... o que ele fez?
Errou.
Ele a contou que ela era ninguém.
A partir desse momento muitos acham que ela acordou para a vida. Esqueceu de sonhos e passou a se preocupar em ser alguém. E viveu o resto de seus dias insatisfeita. Compreensível? Sim... ela tinha tão pouco, mas antes precisava apenas de seus sonhos, e eles que eram tudo o que ela tinha, tudo o que ela precisava, foram tirados dela.
Agora precisava de cada vez mais e de fato tinha cada vez menos.
Alguns poucos, muitos poucos, sabem que ela era alguém muito mais do que todos aqueles que a consideravam ninguém e que pensavam ser alguém. Que a partir do momento em que ‘acordou para vida’ adentrou na freqüência daqueles que pensavam ser alguém... e se tornou ninguém.